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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O RATO DA CAIXA DE SAPATOS

        Por uma longa década um ratinho vivera em uma casa que conseguira entrar. Lá encontrou uma caixa de sapatos que estava atrás do guarda-roupa muito aconchegante, quentinha e escura. Lá era sua nova morada, e ninguém resolvera por muitos anos lhe incomodar. O ratinho era solitário, não queria ter família. Saia todas as noites em busca de comida e sempre ficava bem atento para não deixar nenhuma pista que o denunciasse, pois estava muito satisfeito com a vida de paz e sossego que vivia. Na noite em que os moradores davam suas festas esse ratinho sempre ligado não arredava o pé, ficava quietinho e até ninguém mais avistar e assim sua busca começar. Num determinado momento esse ratinho percebe que está chegando a hora da sua morte e reconhece que nada fez durante sua vida para ser lembrado. Na verdade, nem sabiam que ele existia. Então mergulhado em sua profunda reflexão, o ratinho leva as patinhas a cabeça e diz: Que assim seja o fim do rato da caixa de sapatos, que morre na felicidade da sua solidão, sem ninguém para lhe incomodar nem na vida, nem na morte. Por que seria diferente? perguntou o ratinho para si mesmo. Para que me dado o desfrute da sociabilidade? Para contendas criar? Não! Exclamou o ratinho com a testa franzida. Minha solidão foi uma excelente companheira, sem atordoar meus dias. O ratinho se perguntou novamente: Para que me dar ao luxo de ter um amor? Para sofrer, chorar, ter ciúmes, sentir falta, brigar e tantas outras coisas que vejo aqui nessa casa com essa espécie que nem sabe que existo? Não! Exclamou mais uma vez o ratinho, que colocou a mão no queixo e ficou a pensar em seus últimos momentos. 

           Preferi não amar, nem mesmo a mim, e também não me preocupar nem comigo, nem com o que outros pensam ou desejam. Nada de magoar, nem ser magoado. Melhor estar sozinho e as vezes em minha companhia, sem brigas, sem inveja, sem rancores, só eu e as vezes eu. Espero encontrar nessa partida uma paz que não tenho agora, e deixo algo sim, talvez não seja significante pra ninguém, mas como sempre fui sozinho, deixo as minhas palavras ao vento. E na caixa de sapatos o ratinho disse: adeus!

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